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O tamanho do tombo e suas lições

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Depois da Grande Depressão e da Segunda Guerra, a economia mundial ingressou num ciclo de expansão que se notabilizou como os anos dourados. Foram décadas de notável progresso para a indústria e o comércio, para a modernização da agricultura e mesmo para o sistema financeiro, que então se dedicava a investir no setor produtivo da economia, induzido pela forte regulamentação dos Estados nacionais.

Quando esse ciclo deu mostras de esgotamento, no final do século passado, as amarras ao capital foram apontadas como as responsáveis pela chegada de um novo ciclo, de caráter recessivo, que então se prenunciava. Produziu-se um consenso de que era preciso desobstruir o funcionamento dos mercados, sob o argumento, basicamente correto, de que eles eram eficientes e capazes de se auto-ajustar.

Livre de travas, porém, o capital migrou maciçamente da esfera produtiva para a financeira e desta para a especulação, em busca do lucro rápido e fácil. Parte expressiva da movimentação econômica, desvinculada dos processos produtivos ou do comércio de bens e serviços, passou a ocorrer na compra e venda de papéis, principalmente das dívidas públicas dos governos.

No início da década de 1990, o fim da Guerra Fria contribuiu para reforçar a sensação, em especial nos Estados Unidos – recém consagrados como potência militar hegemônica – de que a prosperidade seria eterna e sem relação direta com fatores como o trabalho, a produtividade e a poupança.

A partir daí sucedem-se as bolhas: a tecnológica, a imobiliária, a das commodities. Instalados de frente para a montanha russa, assistimos o preço do petróleo saltar de US$ 25 o barril em 2002 para US$ 140 em julho de 2008, refluindo desde então para menos de US$ 100, atualmente. No mercado imobiliário dos EUA os preços médios dos imóveis subiram 35% até 2002, 50% até 2005 e 100% até 2007, quando começaram a desabar. Finalmente, refletindo essa evolução especulativa, o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, saiu de 8 mil e foi até quase 14 mil pontos, retrocedendo para menos de 10 mil no início deste mês.

Hoje, todos perguntam: qual é o fundo do poço? Ninguém sabe, mas uma coisa parece certa: tudo o que subiu artificial e rapidamente, vai cair agora da mesma forma, evocando um samba de Billy Blanco, segundo o qual “quanto mais alto o coqueiro maior é o tombo”. Assim, a crise se alastrará por todo o planeta e só terminará quando o organismo econômico tiver depurado a orgia que o intoxicou, descendo ladeira abaixo até atingir um novo nível de equilíbrio, com valores e preços que certamente estarão em patamar bem abaixo do atual.

O mundo econômico, porém, não será mais o mesmo. Se forem aprendidas as lições da crise, a tempestade não terá sido em vão. A primeira delas é a de que a economia é bom senso, não comporta exageros: excessivamente regulada pelo Estado, ela trava e não anda; deixada sem qualquer controle, ao sabor dos especuladores, corre o risco de descarrilar, como ocorreu. É preciso conciliar, portanto, Estado e mercado no mesmo espaço econômico, tanto no interior dos países como na relação entre eles ou entre seus blocos.

Outra lição é a de que existem limites para a expansão econômica baseada no crédito. Quando o emprego e a renda não acompanham a oferta de crédito, esta mais cedo ou mais tarde se choca com a realidade da inadimplência, como ocorreu nos Estados Unidos e como pode acontecer aqui. Lá como cá é bom não confundir crédito com riqueza: esta é fruto exclusivo do trabalho e da poupança, e não de recursos de terceiros, eventualmente – e às vezes irresponsavelmente – colocados à disposição mediante um preço, a taxa de juros. Preço este que pode ser manipulado, como foi nos EUA, para gerar bolhas.

Finalmente, é inevitável a conclusão de que os ciclos de prosperidade passados, além de terem sido construídos sobre fontes de energia poluentes, alijaram de seus benefícios vastas parcelas da África, da Ásia e da América Latina. O atual ciclo recessivo só será superado quando se completar a incorporação ao mercado mundial das grandes massas que dele permanecem excluídas e, sobretudo, quando o atual padrão de acumulação a qualquer custo for substituído por outro, que incorpore a dimensão da sustentabilidade sócio-ambiental ao processo de desenvolvimento.

Abram Szajman é presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e dos Conselhos Regionais do Sesc e Senac

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