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Paulo Skaf contextualiza conjuntura política e econômica do Brasil
Portal Indústria Brasileira - Primeiramente, gostaríamos que o sr. nos falasse sobre o início de sua carreira.
Paulo Skaf - Iniciei a carreira na indústria têxtil, fui presidente de empresas e, mais tarde, assumi a presidência do Sinditêxtil e da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Cheguei à presidência da Fiesp e do Sesi e Senai de São Paulo, em 2004 e me reelegi em 2007, quando também assumi o Ciesp.
Portal Indústria Brasileira - Toda imprensa acompanhou sua luta para a derrubada do CPMF e contra a criação do CSS (Contribuição Social da Saúde) para o senhor, como cidadão, o que significa esta tentativa do governo em ressuscitar a CPMF?
Paulo Skaf - A aprovação da CSS seria um desrespeito à vontade popular e à recente decisão do Senado Federal que, em dezembro de 2007, deu um fim à CPMF. A proposta é um contra-senso, já que vem num momento em que a Câmara discute um projeto de reforma tributária encaminhado pelo próprio Executivo. Não acredito que vá ser aprovada. No ano passado, lutamos contra a CPMF porque acreditávamos que este imposto era absolutamente desnecessário, pois incidia cumulativamente no bolso de cada contribuinte. Hoje todos reconhecem que nossa tese estava correta, até mesmo porque a Receita Federal vem batendo recordes de arrecadação em 2008, mesmo sem o tributo.
Portal Indústria Brasileira - A assinatura do protocolo de intenções trata do conceito de sustentabilidade voltado ao manejo da madeira amazônica. Em âmbito nacional e internacional, como está sendo tratado?
Paulo Skaf - O objetivo principal do Protocolo de Intenções, que foi assinado por mim e pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, em agosto, é assegurar, no Brasil, uma cadeia de consumidores industriais de madeira legal e sustentável. Com este acordo da indústria paulista, queremos dar o exemplo e garantir o consumo apenas de madeira de áreas da Amazônia legalmente estabelecidas para a atividade de extração. Tenho a convicção de que por meio de medidas como esta, cada vez mais figuraremos no cenário internacional como um País que respeita o meio ambiente.
Portal Indústria Brasileira - Durante a reunião do Comitê Empresarial Brasil e Taiwan foi discutido a possibilidade de parcerias tecnológicas e comerciais. Quais acordos foram firmados e qual o papel da Fiesp no estreitamento desta relação e cumprimento do que foi mencionado?
Paulo Skaf - A Fiesp tem atuado com dedicação como uma promotora do processo de internacionalização do Brasil. Desde 2004, já promovemos 44 missões empresariais ao exterior e, só neste ano, recebemos nove chefes de estado e de governo. São nomes como da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, da presidente da Índia, Pratibha Patil, e do presidente do Peru, Alan Garcia. Em novembro, fomos convidados pelo Presidente Lula para liderar uma missão empresarial à Itália. Os encontros têm efetivamente melhorado a imagem do Brasil perante os investidores internacionais e gerado muitas oportunidades.
No caso de Taiwan, o encontro foi muito produtivo para o Brasil, que teve a chance de criar parcerias, principalmente na área tecnológica, com um país asiático de economia tão dinâmica e de importância global. Em contrapartida, Taiwan teve a oportunidade de buscar negócios com uma nação tão repleta de recursos naturais e que tem demonstrado capacidade de superar desafios, que é o Brasil. Agora, diante de uma crise financeira de âmbito mundial, cujos reflexos para o País ainda não estão muito claros, nós avaliamos que este esforço internacional que a Fiesp tem feito, é fundamental.
Portal Indústria Brasileira - No seu ponto de vista e da Fiesp, os corredores bioceânicos chilenos são alternativas para alavancar o turismo brasileiro na região que estão localizados?
Paulo Skaf - Os corredores bioceânicos fazem parte de uma estratégia maior de integração da América do Sul. Um avanço que, num primeiro momento, é de caráter econômico, mas que, com o amadurecimento, se desdobrará na aproximação política e cultural dos países da região. Não consigo conceber que, hoje, um industrial que produza no interior de São Paulo, por exemplo, tenha que usar o Canal do Panamá para vender à Ásia.
No caso dos produtores agrícolas do Centro-Oeste, explorar a saída ao Pacífico reduz significativamente os custos logísticos. Do ponto de vista do Turismo, o advento dos corredores permitirá maior fluxo de turistas. Na Europa, por exemplo, um viajante pode alugar um carro em Berlim e deixá-lo em Roma. Mas, na América Latina, ficamos sempre confinados aos territórios nacionais e, no máximo, vizinhos. É evidente que precisamos pensar grande, num projeto de desenvolvimento que una os países sul-americanos.
Portal Indústria Brasileira - A Federação conseguiu firmar acordos com o Poder Judiciário, por meio de convênios, em quais aspectos estes poderão auxiliar as indústrias?
Paulo Skaf - A Fiesp tem se empenhado em aproximar os magistrados do setor produtivo porque acredita que a integração com a Justiça é uma das principais ferramentas para evoluir com segurança e respeito aos valores da sociedade. Desde nossa primeira gestão frente à Federação, buscamos programas que pudessem estimular a troca de experiências das empresas com o Judiciário e eu fico muito feliz que tenhamos alcançado tal nível de colaboração que hoje se traduz em ações reais e na assinatura, em agosto deste ano, de quatro novos convênios para a promoção de práticas de mediação e conciliação. Não adianta reclamarmos da lentidão da Justiça e ficarmos de braços cruzados. Temos que arregaçar as mangas e cooperar.
Portal Indústria Brasileira - As oscilações cambiais são problemas enfrentados diariamente por empresários, quais as medidas viáveis para amenizar a situação e evitar grandes prejuízos?
Paulo Skaf - Sabemos que a taxa de câmbio é muito importante para qualquer economia. Ela regula nosso saldo comercial e determina a competitividade de nosso produto frente aos demais concorrentes, seja no mercado interno ou no internacional. Recentemente, nossa economia vinha sofrendo com o câmbio sobrevalorizado, mas agora vivemos um novo momento, com a alta do dólar, reflexo da crise financeira originada nos Estados Unidos. Por outro lado, as altas taxas de juros praticadas no Brasil geram efeitos colaterais fortes. A Fiesp tem plena consciência de que milagres e medidas pontuais não surtirão efeito para que a taxa de câmbio se torne mais alinhada, e assim possa promover a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. O que defendemos é uma política econômica que promova o alinhamento cambial no Brasil, de maneira mais duradoura. Para que se possa fazer isso, o primeiro passo é o controle dos gastos públicos, alinhado, posteriormente, a uma sólida coordenação das políticas monetária e fiscal.
Portal Indústria Brasileira - Comparando a atual conjuntura política com a década de 1990, quais os pontos positivos para o setor empresarial?
Paulo Skaf - Embora ainda lutemos contra alguns problemas econômicos e políticos que, cronicamente, há tantos anos nos atingem, hoje vivemos um momento diferente e mais estável. Na década de 90, não havia disciplina fiscal por parte do governo, o que gerava uma inflação mensal da ordem de dois dígitos. Naquele ambiente, o crédito era muito afetado, dificultando os investimentos. Hoje, empreender no Brasil ainda é uma batalha árdua, que exige muita determinação e coragem. No entanto, observamos avanços. A inflação está sob controle, há um volume razoável de crédito disponível e, como conseqüência, a indústria cresce a taxas significativas e as exportações tornaram-se mais competitivas.
Contudo, poderíamos crescer muito mais, não fosse a carga tributária elevada, fruto do ajuste fiscal baseado em aumento de receitas e não na redução de despesas. O exuberante gasto governamental inibe o investimento e estimula a alta taxa de juros, diminuindo nosso potencial de crescimento. Este círculo vicioso só será rompido por meio de reformas abrangentes, notadamente nas áreas tributária, fiscal e previdenciária.
Portal Indústria Brasileira - Quais as expectativas econômicas da Fiesp para o final deste ano e novos projetos para 2009?
Paulo Skaf - É difícil precisar qual a dimensão do impacto da crise internacional sobre o Brasil, mas certamente ele não será nulo. De imediato, podemos constatar o encarecimento e a redução das linhas de crédito internacionais. O pacote de ajuda às instituições financeiras americanas pode reduzir a probabilidade de recessão prolongada nos EUA, mas já é possível prever uma menor demanda mundial por nossos produtos. O saldo final dependerá da robustez do mercado interno e das medidas de ajuste adotadas pelo governo brasileiro. As expectativas referentes ao ano de 2008 não serão afetadas de forma relevante, mas já constatamos que cresceremos menos que o esperado. Não devemos ser alarmistas, nem sofrer além do que for inevitável. Temos que estar preparados para ajudar, confiar em nosso potencial e, principalmente, não negligenciar as reformas internas. Vale lembrar, ainda, que a sociedade brasileira já enfrentou, ao longo de sua história, outras crises — menores e maiores —, e sobreviveu a todas.
Portal Indústria Brasileira - IB - Foto:Divulgação - Por Andressa Nascimento