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Crise ou oportunidade?
A volatilidade do câmbio motivada pela crise financeira internacional poderá mudar o rumo das ações e as expectativas para 2009 no setor de saúde. O cenário que vem se desenhando nestes últimos meses, principalmente pela repentina desvalorização do real, poderá, caso ela persista, haver a necessidade de revisões contratuais em função dos impactos no custo dos materiais importados.
O volume de importações cresceu a uma taxa média anual de 25% nos últimos três anos. Entretanto, persistindo esta tendência de desvalorização cambial, este crescimento poderá ser reduzido, principalmente por conta de bens duráveis (equipamentos médicos) cujo mercado depende de disponibilidade de financiamento e crédito. Com a desvalorização cambial nos níveis atuais, estima-se queda na lucratividade na ordem 10 a 15%. Esta volatilidade e tendência de alta no câmbio, além de prejudicar o resultado financeiro dos importadores, já provoca instabilidade e incertezas nos negócios do setor de saúde, e nos coloca em estado de alerta e monitoramento contínuo sobre o que vai acontecer nos próximos meses.
Os números atuais da Associação Brasileira dos Importadores de Equipamentos, Produtos e Suprimentos Médico-Hospitalares (Abimed) relativos às importações até outubro de 2008 são de US$ 2,85 bilhões. O crescimento projetado é de 30% em relação a 2007, chegando a um total de US$ 3,2 bilhões. Para 2009, acreditamos que as importações continuarão crescendo na ordem de dois dígitos, tendo em conta fundamentalmente os produtos de tecnologias avançadas não disponíveis na indústria local no País. Entretanto, o cenário exige cautela.
Dado ao grande número de variáveis e incertezas, só poderemos ter um quadro mais definido sobre os efeitos da crise econômica no setor de importação de produtos médicos durante o primeiro semestre de 2009.
Em meio a todas as preocupações, há que se atentar ainda mais para o combate à pirataria. Em momentos de turbulências, o ambiente acaba sendo ainda mais fértil à criatividade criminosa. Ao lado de associações co-irmãs, a Abimed aprofundou esta discussão com as autoridades, em especial com a ASEGI (Agência de Segurança Institucional da Anvisa). Este é um momento de oportunidade para fomentarmos esta preocupação e a consciência nacional dos riscos desta prática e encontrarmos meios de combate mais efetivo.
Vamos continuar nossa missão de intensificar a parceria construtiva no setor, entre hospitais, distribuidores, indústria, governo e fontes pagadoras, para aprimoramento constante do sistema de saúde, permitindo acesso dos pacientes às tecnologias que lhes proporcionarão maior e melhor perspectiva de vida.
Olhando os aspectos regulatórios, a Abimed está presente em pelo menos quatro das Câmaras Setoriais da Anvisa, por acreditar ser este um dos fóruns ideais para se discutir e sugerir melhorias contínuas nos atuais sistemas sanitário e regulatório. Sabemos que há muitos custos burocráticos, e sem valor para o sistema de saúde que podem e devem ser revisados, principalmente àqueles relacionados aos processos aduaneiros. Ainda se perde e se destrói produtos nos nossos portos e aeroportos, por conta de burocracias administrativas e falta de comunicação entre organismos reguladores e indústria.
É no momento de crise que a criatividade humana é colocada à prova. Devemos, como cidadãos e conhecedores dos produtos e do segmento em que atuamos, levarmos a nossa contribuição efetiva e permanente para a construção e manutenção de uma agenda comum de trabalho, já manifestada como de interesse pelas autoridades sanitárias, para a melhoria dos processos atuais. A crise e as pessoas passam, mas os processos ficam.
É com este espírito que temos a confiança de que o Brasil continuará crescendo mesmo a taxas modestas, e ainda poderá se tornar um catalisador de um processo de harmonização regulatória para a América Latina e ao mesmo tempo, como membro do G20, dar mais visibilidade ao mundo, da sua capacidade de harmonia e competência também no setor de saúde, através de ações efetivas e motivadoras para novos investimentos estrangeiros.
Aurimar José Pinto é presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Equipamentos, Produtos e Suprimentos Médicos-Hospitalares.